Carta à meu filho...
Hoje no restaurante aqui da frente estava ouvindo uma menina que almoça sempre aqui. Ela é ultra fofoqueira e só enxerga o que os outros fazem de errado no trabalho, e pela conversa, percebia-se que ela se acha o máximo, a unica que é boa funcionária, patati patata.... E fiquei pensando no seu papo de auto-conhecimento e nos comentários do meu mestre de Yoga.
Eu também acredito que grande parte da gente já vem pronta, ou com um viéz muito forte em alguma direção. Acho também, obviamente, que construímos muito durante a nossa vida, afinal se não fosse assim seria muito boring... Acredito muito em buscar o auto-conhecimento, não tão encanado como foi na minha geração, com aquelas imensas crises existenciais, mas nem tão pouco como quem acredita que pode chegar lá apenas com suor e disciplina. Meu mestre de Yoga dizia que vemos o mundo através da lente distorcida de nossa própria personalidade. A lente é turva pelo nossos medos, pelos nossos desejos...E que é importante nos conhecermos para podermos considerar essas distorções. E que só através do auto-conhecimento, paz e equilíbrio interior, e adicionando ai na bagagem uma dose de desapego aos nossos anseios, aos nossos medos, nossos projetos, é que conseguimos realmente "ver" o que se passa a nossa volta. Aquele ditado do bambu que verga sob pressão tem ultra a ver com isso, com a capacidade de deixar tudo fluir sem nos afetar para só então ver e ouvir o que realmente está à nossa frente. Gosto muito desse papo. Talvez eu não seja um bom exemplo a ser seguido, eu encanei demais, busquei meu eu por muito tempo e de forma muito penosa, desenvolvi uma auto-crítica muito forte, mas sai fortalecido. Ainda tenho minhas idiossincrasias, minha lente está lá, mas ao menos conhecendo-as, posso me esforçar em dribla-las para "ver" melhor.
Vem daí minha fama de indeciso, de sempre ter a cautela de botar em cheque minha interpretação, por saber que ela pode estar "distorcida" pela minha própria "lente". Ruim isso? Talvez...
Mudando de assunto. Não sei onde nem o que vc leu sobre meu mar, surf ou coisa assim, mas é verdade que o mar sempre me despertou muita atração. As mais deliciosas memórias que tenho vem do mar, como velejar de hobie-cat em mar bravo, com ondas grandes, vento forte e chuva... A banana de baixo mergulhando, varando as ondas do mar picado e eu sozinho sentado na outra levantada a alguns metros de altura... Era divino... Quando vejo uma imagem de esportes no mar sinto logo o gosto e o cheiro do mar, me atrai as cores, os brilhos, o som, a paz... E o Surf é realmente o esporte mais plástico que existe, nada se compara às suas imagens...
Uma sensação parecida com essas que vc descreve, eu tinha e achava que qdo tentava contar ninguém entendia direito. Era a sensação de estar no topo de uma montanha preparando para descer (ski)... A sensação de dono do mundo, de que era apenas eu, meu equilíbrio, minha postura em relação à montanha, minha postura em relação ao meu próprio medo e, principalmente, a fluidez dos movimentos, da dança do corpo em equilíbrio, que me levariam até lá embaixo.... O ritmo, a musica, estavam na mente (não tinha Ipod)... Além disso, era só a montanha e a gravidade... Uma das melhores sensações que já senti...
Enfim, é isso aí... Auto-conhecimento é tudo... Emoções são tudo, são as raízes de nossas memórias... Eu sempre falei para vcs, mergulhem na agua fria, sintam o vento gelado no rosto, sintam sabores marcantes... São os sentimentos fortes que nos marcam mais profundamente. Os "recuerdos" ficam mais facilmente impressos em nossas mentes qdo veem acompanhados de sensações fortes, com significado... O tombo da bicicleta, a primeira paquera, a primeira namorada (ou a perda dela), a agua gelada... Memórias...
E trabalhar a evolução, em cima da passagem da vida, usando o auto conhecimento, também é tudo... Mas com cuidado, em ambos, não se perca, ou não perca tempo demasiado, com nenhum dos dois, pois o auto-conhecimento completo esta reservado para poucos, assim como o total domínio da nossa evolução é praticamente peça de ficção...
Nós nos damos demasiada importância como seres humanos, o que em parte é bom, pois é com essa crença impossível que avançamos, mas é importante conhecer os limites, saber que somos, antes de tudo, apenas bichos, colocando a cenoura onde não podemos alcançar...
Bem, vou parar por aqui, já tô falando muita bobagem... Pode jogar fora metade ao fazer a sua "re-leitura" no meu texto... Vou viajando nos meus sentimentos, me empolgando e falando bobagem...
Bjos
Traga muitas fotos, e se não der, muitas memórias

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